Por que todo empreendedor deveria ter uma horta

Por Gustavo Tanaka*

Eu comecei a empreender em 2008.

De lá para cá foram 4 empresas formais abertas e mais de 10 projetos iniciados. Alguns foram ficando pelo caminho e outros tinham começo e fim definido e alguns ainda estão em andamento.

Eu estudei administração de empresas na USP e não fui preparado para empreender. Não tive uma matéria sequer de empreendedorismo na faculdade

Meu aprendizado tem sido na raça. Nos tropeços, no esforço, no sofrimento, nas noites não dormidas, nas cabeçadas, nas incontáveis vezes em que tive dúvidas e não fazia ideia do que estava fazendo. Já perdi muito dinheiro.

Mas também vivi muitas coisas incríveis. Já tive empresa que faturou 7 dígitos, já recebi muitos presentes do universo. Contatos, contratos e oportunidades que jamais imaginei que poderiam acontecer. Empreendendo negócios e empreendendo minha própria vida.

Eu fiz da minha vida um laboratório. Fiz da minha vida um campo de experimentação.

Meu objetivo é descobrir o que é viver de verdade. Quais são minhas possibilidades, o que posso fazer, e até onde dá pra chegar?

Como faço para lidar com meus medos, meus sofrimentos e meus desejos?

E nessa jornada eu encontrei a melhor escola de empreendedorismo que existe: A natureza.

Desde que comecei a me envolver mais com a natureza, observar mais e, especialmente cuidar da minha horta, tenho aprendido coisas que nenhuma escola formal de empreendedorismo ensina. Tenho tido insights que me ajudam a conduzir minhas atividades profissionais e experimentar uma nova forma de fazer negócios.

E hoje eu penso que todo empreendedor deveria ter sua própria horta.

Compartilho aqui alguns dos insights.

1 – O tempo das coisas

Quando criamos nossa empresa, temos pressa. Queremos ver resultado rápido, queremos colher os frutos o quanto antes.

Quando se planta alguma coisa, você respeita o tempo daquilo que você plantou. Não é o seu tempo. Não é quando você quer. É no tempo da natureza. No tempo que tiver que ser.

A colheita nunca vem antes da hora. Nenhuma hortaliça cresce antes do seu tempo.

Hoje buscamos aceleradoras para crescer mais rápido. Mas será que precisamos crescer mais rápido? Será que acelerar o crescimento não tira aprendizados que o tempo traria?

2 – Curtir o processo e não na colheita.

Quando se cuida de uma horta, você aprende a gostar de cuidar da horta. Simples assim. Eu não planto para colher. A colheita é apenas uma das etapas.

É gostoso cuidar da terra. É gostoso semear. É gostoso fazer a manutenção, tirar erva daninha, podar, replantar, mudar de lugar. E é gostoso colher.

O processo é especial e delicioso de ser vivido. A colheita é apenas uma das etapas.

Quando empreendemos, temos que aprender a curtir o processo. Se ficamos apenas apegados ao resultado, à colheita, o processo fica chato. Porque às vezes a colheita demora.

3- Aprender sobre o tempo de colheita

Quanto tempo seu projeto vai levar para trazer resultados financeiros?

Qual o tamanho do seu sonho?

Fala-se muito hoje que sonhar grande e sonhar pequeno dá o mesmo trabalho, então melhor sonhar grande mesmo.

Mas o que eu vejo muito é que empreendedores se lançam em sonhos grandes e não conseguem se sustentar até que esse sonho grande dê retorno.

E aí o que acontece é uma busca desesperada por um investidor que coloque uma grana pra poder manter o sonho vivo.

Eu já quebrei e perdi todo meu dinheiro exatamente por isso.

Queria um sonho grande. Uma startup que impactasse milhões de pessoas em um modelo de negócios extremamente complexo. Obviamente que demorou mais tempo para virar do que eu tinha capacidade de sustentar financeiramente.

Na minha horta eu sei que tem coisas que plantei que vão demorar anos para poder colher. Plantei árvores frutíferas que vão demorar mais de 5 anos.

Essa semana fiz uma colheita de mandioca que plantamos 1 ano atrás.

Se eu plantasse somente mandioca na minha horta e dependesse dela pra me sustentar, eu morreria de fome, porque não aguentaria um ano.

O que eu faço então?

Planto hortaliças de ciclo curto, como alface e rúcula que posso colher em uns 40 dias, beringela que posso colher em 3 meses e assim por diante.

Quais são os projetos da sua empresa que trazem a colheita rápida?

Não precisa ser aquilo que você quer fazer pelo resto da vida e nem o sonho grande. Mas algo que traga a colheita para você conseguir se alimentar.

Nos sistemas de agroflorestas faz-se um consórcio, plantando no mesmo espaço hortaliças de ciclo curto, legumes de extrato médio e e árvores frutíferas e nativas (sonho grande).

Como está o seu consórcio na sua empresa?

4 – O ciclo da natureza

No outono as folhas caem.

No inverno tem geada.

Você não pode exigir da sua horta de performar o ano inteiro. Nem se você der 30 dias de descanso.

Mas na empresa, fazemos isso. Queremos render o tempo inteiro. Ter alta performance todos os dias.

Mas tem dias em que não conseguimos trabalhar direito. Tem dias que estamos mais introspectivos. Tem dias que temos menos energia. Tem dias que precisamos de mais descanso e de mais sono.

Como respeitar esses ciclos numa empresa? Esse é um desafio interessante. Acho que é hora de experimentarmos novas rotinas do que o segunda à sexta das 9h às 17hs + 30 dias de férias.

Alguém inventou essa rotina. E acho que podemos buscar uma nova.

5 – Sua plantação tem ciclos

Tudo que eu planto tem um ciclo. As árvores tem ciclos bem mais longos (às vezes mais longos que nossa própria vida). Mas tem hortaliças e legumes que tem ciclos mais curtos.

Quando eu colho aquela rúcula que demorou 40 dias para nascer, eu abro espaço para plantar algo novo. As raízes e e folhas ajudaram a melhorar a qualidade do solo e o preprararam para o que vem a seguir.

O mesmo acontece com pessoas.

Existem pessoas que vão entrar para o seu negócio apenas para ajudar a começar. Elas têm um ciclo curto. E chega uma hora que elas precisam ir embora e seguir suas vidas.

Mas temos apego. Queremos que fiquem para sempre. E muitas relaçãoes terminam em briga por participação, dinheiro, tempo de dedicação. Mas na verdade o que está em jogo é que não entendemos o ciclo da vida e criamos condições que travam esse fluxo.

Não sabemos lidar com o ciclo de pessoas também. Ao invés de sentirmos gratidão por quem contribuiu, mesmo que por algumas semanas, ficamos ressentidos porque foram embora. É como seu eu ficasse puto com a minha rúcula que foi embora…

6 – Aprender a observar

Antes de empreender, temos uma visão, fazemos nosso planejamento, montamos o business plan, as projeções de crescimento. Mas o que acontece é que na prática nunca sai como imaginamos.

O que aprendi com meus tropeços foi aprender a observar.

Fala-se muito hoje em criar um MVP (mínimo produto viável) para testar a ideia e falhar rápido.

Para mim, o que precisamos é aprender a observar. Quando você aprende a observar, você não quer que as coisas sejam do seu jeito. Você apenas oberva o que está acontecendo.

Outro dia semeei umas cenouras. Eu fiquei observando e vi que não estavam nascendo. Depois de algumas semanas tive a certeza de que não vingaram.

Talvez tenham sido as sementes que não eram boas. Talvez seja a terra que nao estava legal ali.

E a partir dessa observação eu mexi na terra e plantei coisas novas.

A observação traz um estado de presença, um estado onde a mente fala menos e damos espaço para perceber a realidade sutil das coisas.

7 – Sentir a abundância

A natureza sempre dá muito mais do que eu consigo comer.

Meu pé de caqui da absurdamente muito caqui. Toda árvore frutífera da muito mais que qualquer pessoa consegue consumir.

Eu posso compartilhar. Não preciso ficar guardando e estocando. Porque eu sei que no próximo ciclo vem mais.

Eu compartilho com a natureza, com os pássaros e insetos e compartilho com meus amigos, familiares e vizinhos.

Qualquer fruta tem muitas sementes. E cada semente dá um novo pé que dá muitas frutas.

É infinito e exponencial.

Você compartilha os frutos que sua empresa dá? Como você se relaciona com quem está em volta de você?

Você pode compartilhar e doar as sementes dos frutos que você colhe. Você pode compartilhar os aprendizados, abrir os processos, dividir as boas práticas.

Não precisamos viver na escassez achando que vai faltar mês que vem.

Eu já vou me preparando para colher as minhas beringelas… 🙂

*Reproduzido na íntegra via LinkedIn

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Publicado em agricultura urbana
5 comentários em “Por que todo empreendedor deveria ter uma horta
  1. Ótimo artigo! Sou empreendedor e esse texto me fez refletir um pouquinho mais sobre Plantar e colher. Obrigado

    Curtido por 1 pessoa

  2. Pedro Savério Penna disse:

    Muito bom!! Ótimos paralelos! Para mim, que planto e empreendo foi uma bela leitura!

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